Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

Agora já pode ser assim

Reza a história, bem velhinha, que havia uma Carochinha, que por ser engraçadinha, teimou que haveria de casar.      

        Certo dia, quando estava a varrer a cozinha, encontrou uma moeda de cinco réis e correu para ir dizer à vizinha que já não tinha de esperar.      

        Vaidosa como era, escolheu o seu melhor vestido e foi pôr-se à janela para ver se arranjava marida.       

        Pensou como deveria começar e decidiu cantar:       

       - Quem quer casar com a Carochinha, que é formosa e bonitinha?       

       - Muu…, Muu…Quero eu, quero eu! – mugiu a Vaca mostrando-se muito interessada – Se casares comigo, vais andar o dia inteiro no prado…       

       - Que voz é essa? Com essa voz, acordavas-me a mim e aos meninos de noite! Contigo é que não quero casar! E, além disso, tenho pressa…       

      Como era o primeiro pretendente, não ficou desanimada e continuou a perguntar, desta vez com uma voz mais alegre e um aperto no coração.       

       - Quem quer casar com a Carochinha que é formosa e bonitinha?       

       Mal tinha acabado de dizer a última palavra, apareceu a Cadela que ladrava e gania de animação.       

        - Ão, ão! Quero eu, quero eu! Se casares comigo, tens uma casota toda janota e comida saborosa que me dá a D. Rosa.       

        - Ai pobre de mim! Que alarido! – queixou-se dando um suspiro – Com essa voz, acordavas-me a mim e aos meninos de noite! Não, não me serves para marido.       

        Ficou a ver a Cadela a afastar-se com as orelhas baixas e o rabo entre as pernas, e voltou a tentar a sua sorte.        

       - Quem quer casar com a Carochinha que é formosa e bonitinha?         

       Muito gorducha e envergonhada, aproximou-se a Porca com um rabo que mais parecia um saca-rolhas e o focinho molhado.         

       - Oinc! Oinc! Quero eu, quero eu! Sou muito comilona, mas também dizem que sou bonacheirona.

       - És muito simpática e pareces ser divertida. Mas com essa voz, acordavas-me a mim e aos meninos de noite! Também mão me caso contigo.         

       Depois, encheu o peito de ar, sorriu e voltou a perguntar:         

      - Quem quer casar com a Carochinha que é formosa e bonitinha?Com peito inchado, penas coloridas e luzidias, candidatou-se a Galinha que resolveu cantar para impressionar.         

      - Cocorocó! Cocorococó! Quero eu, quero eu! Se casares comigo, vais madrugar.         

      - Galinha garnisé, com tanto banzé acordavas-me a mim e aos meninos de noite! E, sem dormir, íamos passar o tempo a refilar.         

      A nossa amiga queria mesmo casar, por isso tinha de continuar.          - Quem quer casar com a Carochinha que é formosa e bonitinha?         

      Com um miar meigo e a cauda bem levantada, aproximou-se a Gata janota a ronronar.         

      - Miau, renhaunhau. Quero eu, quero eu! Se gostas de leite, peixe fresquinho e de apanhar banhos de sol nos telhados, então podemos casar.         

      - Banhos de sol talvez… Mas leite? Peixe fresquinho? E, com essa voz, acordavas-me a mim e aos meninos de noite! Não, não é contigo que vou subir ao altar.         

      Seria possível? Seria assim tão difícil encontrar alguém que não fosse barulhento? Mas foi então que reparou em alguém que se aproximava a passo lento.         

       - Oin, in, oin. Quero eu, quero eu! – zurrou a Burra – Olha, se casares comigo, não vais dormir ao relento.         

       - Mas com essa voz, acordavas-me a mim e aos meninos de noite! A minha vida ia ser um verdadeiro tormento!          

       Como já era tarde, a Carochinha pensou que seria melhor ir tratar do jantar, mas foi então que ouviu chiar…         

       - Hi, hi! E a mim, não vais perguntar se quero casar?         

       Com um sorriso de felicidade por encontrar alguém tão simpático e com uma voz tão fininha, a Carochinha correu para o pátio.         

      - Como te chamas?         

      - Sou a Joana Ratona. Queres casar comigo ou não?         

      A Carochinha convidou-a a entrar, pois tinham muito que conversar e uma data de casamento para marcar. Enviaram os convites, compraram a roupa e prepararam a boda a rigor com o senhor prior.         

      Domingo era o grande dia! A noiva foi a última a entrar na igreja e estava linda, de causar inveja. A Joana Ratona estava orgulhosa mas também muito nervosa. Trocaram juras de amor eterno e, no fim, choveu porque era Inverno. Foi então que a Joana Ratona se lembrou da viagem ao Japão. Correu para casa, porque se tinha esquecido das luvas, mas sentiu um cheirinho gostoso e, acabou por ir espreitar o caldeirão.         

      Pouco depois, a Carochinha achou melhor ir procurar a marida que estava a demorar.         

      - Joana Ratona, encontraste as luvas? – chamou ela ao entrar.         

     Procurou, procurou e quando chegou perto do caldeirão, quase desmaiou e gritou:        

     - Ai a minha marida, a minha rica Joana Ratona, cozida e assada no caldeirão!       

     E assim acaba a história da linda Carochinha, que ficou sem a Joana Ratona, pois era gulosa e caiu no caldeirão. 

publicado por pomordez às 15:33
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1 comentário:
De artesã a 9 de Janeiro de 2010 às 12:13
Até podia ser assim, mas não era a mesma coisa...

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